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por Eduardo Soares
Vamos
discutir neste capítulo o conceito de Esfera
Celeste que foi e continua sendo um dos conceitos
fundamentais para o estudo da Astronomia. Afinal,
a Esfera Celeste é o palco onde se desenrola
o espetáculo das estrelas e dos movimentos
do Sol, da Lua e dos Planetas e será o
nosso ponto de partida.
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FIG.1:
Famosa gravura medieval onde aparece representada
a Esfera Celeste.
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Introdução: Um Conceito
Fundamental
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Se contemplarmos o céu numa noite estrelada e
sem Lua ou num dia sem nuvens, teremos a mesma impressão
que os observadores das antigas civilizações
humanas tiveram, de que estamos no interior de uma imensa
abóbada semi-esférica, onde se encontram
todas as estrelas e por onde se movem o Sol, a Lua e
os planetas (FIG.1
acima).
Esta forte impressão levou à concepção
do Modelo Geocêntrico do Universo, que
persistiu durante milênios. Segundo este antigo
modelo, a Terra estava imóvel no centro de uma
gigantesca esfera vazia, em cuja superfície
interna estavam incrustadas todas as estrelas. Esta
esfera que girava ao redor da Terra, recebeu o nome
de Esfera Celeste.
Alguns imaginavam ainda as estrelas como furos na Esfera
Celeste por onde fluía a luz celestial oriunda
dos reinos divinos.
Atualmente, vivemos a era dos computadores e satélites,
e estes conceitos podem parecer um pouco absurdos para
o leitor. Sabemos que a Terra não está
fixa, nem ocupa o centro do Universo. Sabemos também
que os planetas e o Sol não giram ao redor da
Terra. As estrelas não estão presas numa
superfície esférica e as suas distâncias,
que eram consideradas como sendo todas iguais ao raio
da Esfera Celeste, são na verdade variáveis.
Algumas estrelas estão mais próximas de
nós e outras muito distantes.
No entanto, o conceito de Esfera Celeste continua
a ser muito útil em Astronomia. De fato, é
largamente utilizado hoje em dia pelos astrônomos,
pois além de ser uma boa maneira de representar
o Universo visto a partir da Terra, ajuda a determinar
as posições e os movimentos aparentes
dos astros. A Esfera Celeste deixou, portanto,
de ser considerada como uma entidade física,
como nos modelos cosmológicos antigos, e hoje
em dia é tratada como um modelo geométrico,
uma abstração matemática.
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Conceito Moderno e Movimento Diurno da
Esfera Celeste
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Vamos definir a Esfera Celeste
em seu conceito moderno, como uma esfera de raio unitário,
em cujo centro se encontra o observador
e na qual representamos os movimentos e as posições
dos astros.
Neste modelo geométrico, raio unitário
significa um raio de tamanho arbitrário, ou
seja de dimensões muito maiores que o raio
terrestre. Os astros que observamos, sejam eles os
planetas, a Lua ou as estrelas estão situados
a distâncias tão grandes que, para os
observadores situados na Terra, tudo se passa como
se todos eles estivessem igualmente afastados de nós,
presos na Esfera Celeste a uma mesma distância.
Nas observações práticas de reconhecimento
do céu, as medidas que nos interessam são
as distâncias angulares. Sabemos que
o tamanho dos lados que formam um ângulo não
influencia no seu valor, portanto a medida exata do
raio da Esfera Celeste não deve nos preocupar
neste momento.
Vamos considerar ainda que as estrelas ocupam posições
fixas em relação umas às outras.
Se observarmos o céu ano após ano vamos
perceber que os grupos de estrelas que formam as constelações
mantém os seus aspectos ou figuras com o decorrer
do tempo. Neste modelo, o Sol, a Lua
e os planetas também estão localizados
sobre a superfície da Esfera Celeste mas se
movem continuamente sobre o fundo das estrelas
fixas. Estes movimentos são chamados de movimentos
aparentes.
Além disso, como efeito do movimento de rotação
do planeta Terra sobre o seu eixo, com a duração
de um dia, toda a Esfera Celeste parece girar ao nosso
redor, completando uma volta completa em aproximadamente
24 horas. Este movimento aparente de rotação
da Esfera Celeste ao nosso redor recebe o nome de
movimento diário
da Esfera Celeste
(também chamado de movimento
diurno). Como a Terra gira no espaço
no sentido de Oeste para Leste, do nosso ponto
de vista vemos toda a Esfera Celeste girar no sentido
contrário, ou seja de Leste para Oeste.
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O Ponto de Vista do Observador
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Definido o nosso modelo para a Esfera
Celeste, vejamos então como aplicar estes conceitos
numa situação real. Na prática,
sempre vemos apenas metade da Esfera Celeste, ou seja,
apenas um hemisfério, em cujo centro se
encontra o Observador. A FIG.2
abaixo ilustra esta situação através
de um diagrama esquemático.
FIG.2:
Diagrama mostrando o hemisfério visível ao observador.
Vamos definir inicialmente a vertical do observador,
ou vertical do lugar.
É a linha reta que passa pelo observador verticalmente,
interceptando a Esfera Celeste em seu ponto mais alto. Esta
é uma direção fundamental em
Astronomia, definida mais precisamente pela direção
do campo de gravidade do local. A direção
definida desta forma deve teóricamente passar pelo
centro da Terra. Um método simples para se visualizar
a direção da vertical do lugar é
a utilização de um fio de prumo, comumente
usado em construções para se elevar verticalmente
as paredes de uma casa. Ao suspender-se um fio de prumo,
que nada mais é do que uma linha com um peso em sua
extremidade ( ou um tipo de pêndulo ) define-se a
vertical naquele lugar.
A vertical do lugar intercepta a superfície
da Esfera Celeste em dois pontos. Um deles, situado diretamente
acima do observador é chamado de Zênite.
Este é o ponto mais alto do céu em
um determinado local, e fica bem acima da cabeça
do observador. O outro ponto está situado diametralmente
oposto ao Zênite, abaixo do observador e é
chamado de Nadir.
O próximo conceito astronômico a ser considerado,
certamente já é bastante familiar a todos
os leitores. Trata-se do Horizonte.
Imagine-se num pequeno barco ou ilha no meio do oceano,
com o mar bastante calmo. Ao longe pode-se ver a linha onde
o céu e o mar se encontram, em todas as direções.
Esta é uma boa representação da chamada
linha do horizonte. Mas na prática, difícilmente
podemos ver o horizonte ideal, sempre haverá obstáculos,
montanhas, árvores, edifícios, etc. obstruindo
a nossa visão.
Por isso, precisamos definir mais precisamente este conceito.
Um método é definir teóricamente um
plano geométrico que seja perpendicular à
vertical do lugar. Podemos também determinar
físicamente este plano. Se colocarmos um líquido,
como por exemplo, o mercúrio metálico
em uma cuba ou prato, vamos notar que este líquido
se acomoda no recipiente formando uma superfície
plana. O plano determinado por esta superfície líquida
em repouso representa um plano fundamental da Astronomia,
que chamamos de plano do horizonte
astronômico do lugar.
A intersecção deste plano com a Esfera Celeste
determina o circulo máximo conhecido como linha
do horizonte, ou horizonte
astronômico.
O plano do horizonte astronômico divide a Esfera
Celeste em dois hemisférios. Um deles, visível
ao observador é chamado de céu ou firmamento.
Como contém o zênite, este hemisfério
é denominado hemisfério
zenital. O outro hemisfério celeste, é
invisível ao observador e por conter o nadir,
pode ser chamado de
hemisfério nadiral ( ou como preferiam
alguns autores antigos, anti-firmamento ).
FIG.3
: Diagrama mostrando a Esfera Celeste e os
Pontos Cardeais.
Os leitores que pretendem realizar observações
de campo precisam ficar atentos também à localização
dos chamados pontos cardeais,
que são norte, leste, sul e
oeste no sentido horário (dos ponteiros do
relógio). Ao contrário do que muitos pensam,
estes pontos estão localizados na Esfera Celeste,
sobre a linha do horizonte astronômico, e não
na superfície terrestre (veja a FIG.3
acima). Outra confusão muito comum diz respeito ao
uso de uma bússola para localizar o norte.
É preciso ter em mente que uma bússola indica
sempre o norte magnético do local e não
o norte astronômico. Existe sempre uma boa
diferença em graus entre esses dois pontos,
que varia de acordo com a localização geográfica.
Como a esfera celeste parece girar no sentido de leste
para oeste, vemos todos os astros nascerem no horizonte
leste, ou nascente,
e se porem no horizonte oeste, ou poente.
A localização dos pontos cardeais é
muito importante para os observadores que tentam encontrar
as figuras das constelações munidos de uma
carta celeste.
Note que o hemisfério visível da esfera celeste,
incluindo tanto o horizonte, como a vertical do lugar, o
zênite e o nadir dependem da posição
geográfica do observador. Portanto, caso o observador
se desloque na superfície terrestre, por exemplo
viaje de uma cidade para outra, mesmo que sejam localidades
próximas, todos estes elementos vão se alterar
de acordo.
Nos próximos capítulos vamos discutir em detalhes
os sistemas de coordenadas astronômicas e as suas
aplicações práticas na localização
dos astros.
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Sumário
e Conceitos Principais:
| Esfera
Celeste : |
esfera imaginária
de raio unitário ( muito grande ), com centro
na Terra, e na qual representamos as posições
dos astros.
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| Horizonte
: |
intersecção
da esfera celeste com o plano perpendicular à
vertical do lugar, ou também, a intersecção
da esfera celeste com o plano tangente à
superfície da Terra no local onde se encontra
o observador.
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| Zênite
: |
ponto mais
alto da esfera celeste localizado diretamente acima
do observador, a uma distância angular de
90° do horizonte.
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| Movimento
Diário ou Diurno: |
movimento
aparente de rotação da esfera celeste
no sentido de leste para oeste, provocado pelo movimento
de rotação da Terra ao redor do seu
eixo.
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