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 O Universo Escuro
Parte I : Matéria Escura

por Ricardo Oliveira de Mello



A Descoberta da Matéria Escura

Já em 1933  o aströnomo F.Zwicky obsevou que a massa de grandes aglomerados de galáxias ( por exemplo Coma e Virgo - Fig.1) estimada em termos da dispersão de velocidade e do raio médio efetivo ( utilizando-se o teorema de virial ) era muito maior do que a estimativa feita com base nas razões massa/luminosidade de galáxias individuais.

Nos anos 70 mediram-se as curvas de rotação galáticas utilizando estrelas e nuvens de gás hidrogênio neutro como partículas teste. Observe ( Fig.2 ) como a velocidade de rotação tende a um valor constante longe do centro galático enquanto a luminosidade cai rapidamente com a distância radial .

Aglomerado de Coma
FIG 1 : O Aglomerado de Coma

FIG. 2 : Curva de rotação da galáxia de Andrômeda (M31)



O fato da velocidade não diminuir longe do centro galático indica a existência de matéria não-luminosa compondo o halo da galáxia ( Fig.3 ). .

Esta matéria não-luminosa é responsável por manter as galáxias individuais, os aglomerados e os super-aglomerados de galáxias gravitacionalmente ligados e é denominada ''matéria escura''. Mas qual é a sua natureza?

FIG 3 : Halo de matéria escura envolvendo
a Galáxia.
Matéria Escura Não-bariônica

A matéria comum que conhecemos e que constitui as pessoas, nosso planeta, a poeira interestelar, o gás existente nas galáxias e entre elas e as próprias estrelas é constituída de prótons e neutrons, partículas que fazem parte de uma classe maior de partículas chamadas baryons de acordo com o modelo padrão das partículas elementares.

Uma das grandes conquistas da cosmologia padrão(a teoria do big-bang quente) foi a predição das abundâncias dos elementos leves ( H, D, 3He, 4He e 7Li ) observadas em amostras do cosmos primitivo. De acordo com esta teoria, as abundâncias previstas são funções da densidade de baryons ( Fig.4 ). Note em particular como a abundância de deutério é sensível a variações da densidade de baryons.

À Direita ( FIG. 4 ) : Abundâncias previstas dos elementos leves em função da densidade de baryons. A faixa azul destaca a determinação da densidade de baryons baseada em recente medida da abundância primordial de deutério.
( diagrama extraído de Turner1999 ).

Em 1998, Tytler e Burles mediram a abundância de deutério primitivo com precisão de 10%, fornecendo uma medida precisa da densidade de baryons: ômegaB=0,045±0,01 (em unidades de densidade crítica-1,88h2 10-29 g cm-3). Além disso, a razão de baryons para massa total em aglomerados galáticos foi determinada a partir de uma amostra de 45 aglomerados usando medidas de raio X fornecendo f = (0,075±0,002)h-3/2 (onde h=0,65±0,05 é o valor recentemente estabelecido pela equipe do Projeto Chave do Telescópio Espacial Hubble da constante de Hubble em unidades de 100km s-1 Mpc-1 ). Assumindo que os aglomerados proporcionam uma amostra justa da matéria no universo(o que é muito razoável considerando seus tamanhos elevados) podemos utilizar os dados acima para inferir que a densidade de matéria média do universo vale ômegaM=0,35±0,07 (em unidades de densidade crítica).Por matéria entendemos partículas com pressão desprezível(i.e., não-relativísticas, ou com temperatura T<<mc2). O fato de apenas cerca de 15% da matéria existente nos aglomerados ser atribuído aos baryons é uma evidência quase irrefutável para a matéria escura não-baryônica.


Matéria Escura Bariônica

Comparando a contribuição das estrelas brilhantes para a densidade de matéria  que é de apenas ômegaLUM ~ 0,5% da densidade crítica com a densidade de baryons(cerca de 4,5% da densidade crítica) notamos uma discrepância de um fator de dez.

Ocorre que observações de raios X revelam que o gás quente no interior dos aglomerados de galáxias pesa 10 vezes mais do que as estrelas. Mas apenas 5% das galáxias pertencem aos grandes aglomerados. Globalmente, cerca de 1/3 da densidade de baryons deve-se a estrelas, gás frio e gás morno dentro das galáxias. Presume-se que os outros 2/3 estejam em gás intergalático quente e/ou morno associado a galáxias.

Um outro candidato a matéria escura bariônica no halo da Via-láctea são estrelas escuras(como anãs brancas, estrelas de neutrons e buracos negros que já esgotaram seu combustível nuclear). Microlentes gravitacionais de estrelas no bojo da nossa galáxia e nas nuvens de Magalhães por objetos em primeiro plano têm sido detectadas pelos grupos EROS, MACHO, DUO e OGLE. A interpretação dos resultados é problemática, mas os MACHO's (sigla para massive compact halo objects) certamente representam muito menos da metade da massa do halo. Os modelos de formação de estrutura, por sua vez, favorecem totalmente a hipótese de que a maior parte do halo seja constituída por matéria escura fria.


Matéria Escura Quente e Matéria Escura Fria



FIG. 5 :  A forte aglomeração que emerge segundo o modelo de matéria escura quente de formação galática ( esquerda ) comparado com a distribuição real observada de acordo com o catálogo do Center for Astrophysics ( direita ).


A matéria escura quente é assim denominada porque é composta por partículas leves que se movem rapidamente. O principal candidato para este tipo de matéria é o neutrino. Há três espécies de neutrinos, cada um correspondendo às três espécies de léptons existentes; o elétron, o muon e o tau.

Em junho de 1998, a colaboração Super-Kamiokande relatou forte evidência de oscilação de neutrinos(muon neutrino para tau neutrino)nos dados de neutrinos atmosféricos tomados com o detetor do Super-Kamiokande. Ocorre que o fenômeno de oscilação de neutrinos só é possível se o neutrino possuir massa, que atualmente está sendo estimada em torno de 1eV/c2. Há poucos anos atrás acreditava-se que neutrinos massivos poderiam constituir a totalidade da matéria escura, hoje se sabe que a contribuição dos neutrinos fica entre 0,3%(dada sua massa pequena) e 15% da densidade crítica.

A matéria escura quente não explica o padrão de galäxias observado no universo. Os neutrinos teriam emergido do Big Bang com velocidades relativísticas e tenderiam a suavizar qualquer flutuação existente na densidade de matéria. Um universo dominado por neutrinos não possuiria matéria nos vazios existentes entre os super-aglomerados de galáxias uma vez que tudo teria sido varrido para filamentos ( Fig.5 ).

Entretanto, medidas astronômicas precisas indicam que os vazios contém galáxias anãs ( Fig.6 ). Esta descoberta desacreditou todos os modelos de matéria escura quente para o universo.

Ao contrário da predição do modelo de matéria escura quente, as observações mostram que as estruturas se formaram de baixo para cima, isto é, galáxias primeiro, seguidas por aglomerados e superaglomerados, exatamente como previsto pelo modelo de matéria escura fria(partículas pesadas e que se movem lentamente) que supostamente constituem a quase totalidade da matéria escura não-baryônica(ou matéria exótica). Ao mesmo tempo o fracasso do cenário de formação de estruturas de cima para baixo limita a contribição dos neutrinos.



FIG. 6 : O Universo Primordial. Esta simulação computacional mostra o universo como ele deve ter sido quando tinha uma fração de sua idade atual. As manchas brilhantes e as fibras correspondem às galáxias e aos filamentos.


WIMPs

Os candidatos mais promissores a matéria escura fria são partículas neutras e que interagem muito fracamente entre si ou com a matéria baryônica, reagindo quase que exclusivamente à gravidade, chamadas WIMPs ( sigla para weakly interacting massive particles ). Os principais candidatos nessa classe são os axions e os neutralinos. Os axions surgem no contexto da cromodinâmica quântica ( QCD ), a teoria que explica as interações fortes em termos dos quarks, para resolver o "problema CP forte". Apesar de sua massa muito pequena ( 10-6 - 10-4 eV/c2 ) os axions teriam sido produzidos em repouso e por isso são considerados matéria escura fria.

O neutralino é uma partícula prevista pela chamada extensão supersimétrica ( SUSY ) do modelo padrão. A supersimetria pode unificar as forças eletrofraca e forte ( e mesmo a gravidade ). SUSY prevê que todas as partículas do modelo padrão possuem super-parceiros ( designados por um sufixo "ino", como o fotino que é o parceiro supersimétrico do fóton ). Quarks e léptons, que são férmions ( partículas com spin semi-inteiro ímpar ), possuem superparceiros que são bósons ( partículas com spin inteiro ),  enquanto os bósons que carregam as forças fundamentais possuem superparceiros fermiônicos.

Os superparceiros das partículas conhecidas são muito pesados e fora do alcance energético dos aceleradores de partículas em operação no momento. Entretanto o neutralino é uma superposição de estados associados aos Higgsinos ( superparceiros associados aos bósons de Higgs ) e que tem a propriedade  de ser estável(o que significa que eles ainda devem existir como relíquias do big bang) além de ser a partícula supersimétrica mais leve ( 50-500GeV/c2 ) e justamente por isso altamente testável. O bóson the Higgs é uma partícula prevista pelo modelo padrão e seria responsável por conferir massa aos bósons mediadores da interação eletrofraca. Em setembro passado físicos de partículas trabalhando no experimento ALEPH em andamento no LEP ( Large Electron Positron ) anunciaram a possível descoberta do Higgs ( considerado o "Santo Graal" da física de partículas ) com massa de 114,9 GeV/c2. O experimento continua coletando dados para afastar a possibilidade de eventos de fundo.

No tocante à parte experimental, destacam-se o experimento no Livermore National Laboratory em busca de axions e os experimentos DAMA ( em Gran Sasso, Itália ) e CDMS ( em Stanford ) em busca de neutralinos existentes no halo da Via-láctea. Estes dois últimos são experimentos muito sofisticados montados em  minas a vários metros de profundidade no subsolo e utilizando detetores de alta tecnologia. A colaboração DAMA  recentemente anunciou a deteção de neutralinos ( suspense ) . O resultado não foi reproduzido pelo CDMS, entretanto estes utilizam detetores diferentes e sua atual sede, em Stanford, não fica muito abaixo do solo, estando sujeita a interferência de neutrinos atmosféricos. Eles estão se mudando para uma nova sede, metros de profundidade no subsolo ( para se livrarem da interferência dos neutrinos atmosféricos ) . Além disso ambos estão fabricando detetores mais sensíveis que poderão confirmar os resultados logo.

Conclusão

A descoberta do bóson de Higgs é importante para consolidar o modelo padrão das partículas elementares e ao mesmo tempo proporciona a base para a sua extensão supersimétrica; o neutralino, por exemplo, é uma superposição de higgsinos. A descoberta dos neutralinos por sua vez constituiria a primeira evidência empírica para a supersimetria além de explicar a natureza da matéria escura fria, consolidando o modelo de matéria escura fria de formação de estrutura ( tão bem sucedido na explicação das estruturas do universo em grande escala- os aglomerados, os vazios, os filamentos, as paredes, etc. ) . Juntamente com a descoberta da massa do neutrino ( o modelo padrão prevê neutrinos sem massa ) estes novos avanços estão apontando para uma nova física e como veremos no próximo artigo a recente descoberta da constante cosmológica e do universo acelerado também estão apontando para uma nova cosmologia que consolidou o cenário inflacionário. Também é interessante observar a prolífica interação entre a física de partículas e a cosmologia, uma área de pesquisa denominada astrofísica de partículas.

Leia também a Segunda Parte deste artigo : A Energia Escura .


Referências :

  • Turner, Michael - "The dark side of the universe: from Zwicky to accelerated expansion" , Physics Reports 333-334 (2000) 619-635
  • Narlikar, Jayant V. - "The Primeval Universe", Oxford University Press, 1988
Links Interessantes na Internet ( em Inglês ):


O Autor :

Ricardo O. de Mello é estudante de doutorado do Departamento de Física-Matemática do Instituto de Física da USP na área de Física de Partículas e Campos. Atualmente pesquisa gravitação quântica em 1+1 dimensões.



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