Matéria Escura Não-bariônica
A matéria comum que conhecemos e que constitui as pessoas, nosso
planeta, a poeira interestelar, o gás existente nas galáxias
e entre elas e as próprias estrelas é constituída
de prótons e neutrons, partículas que fazem parte de uma
classe maior de partículas chamadas baryons de acordo com o modelo
padrão das partículas elementares.
Uma das grandes conquistas da cosmologia padrão(a teoria do big-bang
quente) foi a predição das abundâncias dos elementos
leves ( H, D, 3He, 4He e 7Li ) observadas
em amostras do cosmos primitivo. De acordo com esta teoria, as abundâncias
previstas são funções da densidade de baryons ( Fig.4 ).
Note em particular como a abundância de deutério é
sensível a variações da densidade de baryons.
À Direita ( FIG. 4 ) : Abundâncias previstas dos elementos leves em função da densidade de baryons. A faixa azul destaca a determinação da
densidade de baryons baseada
em recente medida da abundância primordial de deutério. ( diagrama extraído de
Turner1999 ).
Em 1998, Tytler e Burles mediram a abundância de deutério
primitivo com precisão de 10%, fornecendo uma medida precisa da
densidade de baryons: ômegaB=0,045±0,01 (em unidades
de densidade crítica-1,88h2 10-29 g cm-3).
Além disso, a razão de baryons para massa total em aglomerados
galáticos foi determinada a partir de uma amostra de 45 aglomerados
usando medidas de raio X fornecendo f = (0,075±0,002)h-3/2
(onde h=0,65±0,05 é o valor recentemente estabelecido pela
equipe do Projeto Chave do Telescópio Espacial Hubble da constante
de Hubble em unidades de 100km s-1 Mpc-1 ). Assumindo
que os aglomerados proporcionam uma amostra justa da matéria no
universo(o que é muito razoável considerando seus tamanhos
elevados) podemos utilizar os dados acima para inferir que a densidade
de matéria média do universo vale ômegaM=0,35±0,07
(em unidades de densidade crítica).Por matéria entendemos
partículas com pressão desprezível(i.e., não-relativísticas,
ou com temperatura T<<mc2). O fato de apenas cerca de
15% da matéria existente nos aglomerados ser atribuído aos
baryons é uma evidência quase irrefutável para a matéria
escura não-baryônica.
Matéria Escura Bariônica
Comparando a contribuição das estrelas brilhantes para
a densidade de matéria que é de apenas ômegaLUM
~ 0,5% da densidade crítica com a densidade de baryons(cerca de
4,5% da densidade crítica) notamos uma discrepância de um
fator de dez.
Ocorre que observações de raios X revelam que o gás
quente no interior dos aglomerados de galáxias pesa 10 vezes mais
do que as estrelas. Mas apenas 5% das galáxias pertencem aos grandes
aglomerados. Globalmente, cerca de 1/3 da densidade de baryons deve-se
a estrelas, gás frio e gás morno dentro das galáxias.
Presume-se que os outros 2/3 estejam em gás intergalático
quente e/ou morno associado a galáxias.
Um outro candidato a matéria escura bariônica no halo da
Via-láctea são estrelas escuras(como anãs brancas,
estrelas de neutrons e buracos negros que já esgotaram seu combustível
nuclear). Microlentes gravitacionais de estrelas no bojo da nossa galáxia
e nas nuvens de Magalhães por objetos em primeiro plano têm
sido detectadas pelos grupos EROS, MACHO, DUO e OGLE. A interpretação
dos resultados é problemática, mas os MACHO's (sigla para
massive compact halo objects) certamente representam muito menos da metade
da massa do halo. Os modelos de formação de estrutura, por
sua vez, favorecem totalmente a hipótese de que a maior parte do
halo seja constituída por matéria escura fria.
Matéria Escura Quente e Matéria Escura Fria

FIG. 5 : A forte aglomeração que emerge segundo o modelo de matéria escura quente de formação galática ( esquerda ) comparado
com a distribuição real observada de acordo com o catálogo do Center for Astrophysics ( direita ).
A matéria escura quente é assim denominada porque é
composta por partículas leves que se movem rapidamente. O principal
candidato para este tipo de matéria é o neutrino. Há
três espécies de neutrinos, cada um correspondendo às
três espécies de léptons existentes; o elétron,
o muon e o tau.
Em junho de 1998, a colaboração Super-Kamiokande relatou
forte evidência de oscilação de neutrinos(muon neutrino
para tau neutrino)nos dados de neutrinos atmosféricos tomados com
o detetor do Super-Kamiokande. Ocorre que o fenômeno de oscilação
de neutrinos só é possível se o neutrino possuir massa,
que atualmente está sendo estimada em torno de 1eV/c2.
Há poucos anos atrás acreditava-se que neutrinos massivos
poderiam constituir a totalidade da matéria escura, hoje se sabe
que a contribuição dos neutrinos fica entre 0,3%(dada sua
massa pequena) e 15% da densidade crítica.
A matéria escura quente não explica o padrão de
galäxias observado no universo. Os neutrinos teriam emergido do Big
Bang com velocidades relativísticas e tenderiam a suavizar qualquer
flutuação existente na densidade de matéria. Um universo
dominado por neutrinos não possuiria matéria nos vazios existentes
entre os super-aglomerados de galáxias uma vez que tudo teria sido
varrido para filamentos ( Fig.5 ).
Entretanto, medidas astronômicas precisas indicam que os vazios
contém galáxias anãs ( Fig.6 ). Esta descoberta desacreditou
todos os modelos de matéria escura quente para o universo.
Ao contrário da predição do modelo de matéria
escura quente, as observações mostram que as estruturas se
formaram de baixo para cima, isto é, galáxias primeiro, seguidas
por aglomerados e superaglomerados, exatamente como previsto pelo modelo
de matéria escura fria(partículas pesadas e que se movem
lentamente) que supostamente constituem a quase totalidade da matéria
escura não-baryônica(ou matéria exótica). Ao
mesmo tempo o fracasso do cenário de formação de estruturas
de cima para baixo limita a contribição dos neutrinos.

FIG. 6 : O Universo Primordial. Esta simulação computacional mostra o universo
como ele deve ter sido quando tinha uma fração de sua idade atual. As manchas brilhantes e as fibras correspondem às galáxias e
aos filamentos.
WIMPs
Os candidatos mais promissores a matéria escura fria são
partículas neutras e que interagem muito fracamente entre si ou
com a matéria baryônica, reagindo quase que exclusivamente
à gravidade, chamadas WIMPs ( sigla para weakly interacting massive
particles ). Os principais candidatos nessa classe são os axions
e os neutralinos. Os axions surgem no contexto da cromodinâmica quântica ( QCD ),
a teoria que explica as interações fortes em termos dos quarks,
para resolver o "problema CP forte". Apesar de sua massa muito pequena ( 10-6
- 10-4 eV/c2 ) os axions teriam sido produzidos em
repouso e por isso são considerados matéria escura fria.
O neutralino é uma partícula prevista pela chamada extensão
supersimétrica ( SUSY ) do modelo padrão. A supersimetria pode
unificar as forças eletrofraca e forte ( e mesmo a gravidade ). SUSY
prevê que todas as partículas do modelo padrão possuem
super-parceiros ( designados por um sufixo "ino", como o fotino que é
o parceiro supersimétrico do fóton ). Quarks e léptons,
que são férmions ( partículas com spin semi-inteiro
ímpar ), possuem superparceiros que são bósons ( partículas
com spin inteiro ), enquanto os bósons que carregam as forças
fundamentais possuem superparceiros fermiônicos.
Os superparceiros das partículas conhecidas são muito
pesados e fora do alcance energético dos aceleradores de partículas
em operação no momento. Entretanto o neutralino é
uma superposição de estados associados aos Higgsinos ( superparceiros
associados aos bósons de Higgs ) e que tem a propriedade de
ser estável(o que significa que eles ainda devem existir como relíquias
do big bang) além de ser a partícula supersimétrica
mais leve ( 50-500GeV/c2 ) e justamente por isso altamente testável.
O bóson the Higgs é uma partícula prevista pelo modelo
padrão e seria responsável por conferir massa aos bósons
mediadores da interação eletrofraca. Em setembro passado
físicos de partículas trabalhando no experimento ALEPH em
andamento no LEP ( Large Electron Positron ) anunciaram a possível
descoberta do Higgs ( considerado o "Santo Graal" da física de partículas ) com
massa de 114,9 GeV/c2. O experimento continua coletando dados
para afastar a possibilidade de eventos de fundo.
No tocante à parte experimental, destacam-se o experimento no
Livermore National Laboratory em busca de axions e os experimentos DAMA
( em Gran Sasso, Itália ) e CDMS ( em Stanford ) em busca de neutralinos
existentes no halo da Via-láctea. Estes dois últimos são
experimentos muito sofisticados montados em minas a vários
metros de profundidade no subsolo e utilizando detetores de alta tecnologia.
A colaboração DAMA recentemente anunciou a deteção
de neutralinos ( suspense ) . O resultado não foi reproduzido pelo CDMS,
entretanto estes utilizam detetores diferentes e sua atual sede, em Stanford,
não fica muito abaixo do solo, estando sujeita a interferência
de neutrinos atmosféricos. Eles estão se mudando para uma
nova sede, metros de profundidade no subsolo ( para se livrarem da interferência
dos neutrinos atmosféricos ) . Além disso ambos estão
fabricando detetores mais sensíveis que poderão confirmar
os resultados logo.
Conclusão
A descoberta do bóson de Higgs é importante para consolidar
o modelo padrão das partículas elementares e ao mesmo tempo
proporciona a base para a sua extensão supersimétrica; o
neutralino, por exemplo, é uma superposição de higgsinos.
A descoberta dos neutralinos por sua vez constituiria a primeira evidência
empírica para a supersimetria além de explicar a natureza
da matéria escura fria, consolidando o modelo de matéria
escura fria de formação de estrutura ( tão bem sucedido
na explicação das estruturas do universo em grande escala-
os aglomerados, os vazios, os filamentos, as paredes, etc. ) . Juntamente
com a descoberta da massa do neutrino ( o modelo padrão prevê
neutrinos sem massa ) estes novos avanços estão apontando para
uma nova física e como veremos no próximo artigo a recente
descoberta da constante cosmológica e do universo acelerado também
estão apontando para uma nova cosmologia que consolidou o cenário
inflacionário. Também é interessante observar a prolífica
interação entre a física de partículas e a
cosmologia, uma área de pesquisa denominada astrofísica de
partículas.
Leia também a Segunda Parte deste artigo : A Energia Escura .
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